domingo, 16 de fevereiro de 2014

China, o país do futebol


Escreve Eduardo Galeano, no seu "Futebol: sol e sombra", a propósito das origens do futebol: 
"No futebol, como em quase tudo o resto, os primeiros foram os chineses. Há cinco mil anos, os malabaristas chineses dançavam com a bola nos pés, e foi na China onde se organizaram, tempos depois, os primeiros jogos. A baliza estava no centro e os jogadores evitavam, sem usar as mãos, que a bola tocasse no chão. De dinastia em dinastia a tradição continuou, como se vê em alguns relevos de monumentos anteriores a Cristo e também em algumas gravuras posteriores, que mostram os chineses da dinastia Ming a jogar com uma bola que parece da Adidas."

Livro Dinastia Ming


E uma boa leitura sobre a dinastia Ming:
The Confusions of Pleasure - Commerce and Culture in Ming China, de Timothy Brook.


Livro Dinastia Qing


Uma boa leitura sobre a dinastia / império Qing:
China's Last Empire - The great Qing, de William T. Bowe.



Etnia manchu

A partir dos anos 80 do século passado, ou seja, apenas há cerca de 30 anos, começou a verificar-se um revisionismo na historiografia Qing, sendo posto em causa que os manchus tivessem uma identidade única. Esta seria antes uma criação política, muito virada para a conquista da China, e terão sido os manchus que se esforçaram por criá-la, uma vez que entre eles existe uma diversidade imensa. Ou seja, a tendência actualmente dominante é a de acentuar a origem multi-étnica manchu e de que a sua identidade seria uma criação. Ficam, então, de alguma forma postas em causa as teorias até aí dominantes segundo as quais os manchus teriam sido assimilados pelos chineses. A verdade é que eles pretenderam governar a China segundo a teoria confucionista do mandato atribuído ao filho do céu, mas foram criando ao longo da dinastia uma identidade própria. 
Para entender melhor o assunto é ler Pamela Kyle Crossley, nomeadamente o seu The manchus.



A China Qing a partir das Guerras do Ópio - 1840 - 1911


No século XVIII a questão da balança comercial negativa para os chineses vai alterar-se radicalmente com o comércio do ópio. Esta substância já era conhecida desde o tempo dos Tang, mas era utilizada para efeitos medicinais, e não como vício e euforia narcótica. O que é facto é que a utilização do ópio juntamente com o álcool e tabaco vai ser moda entre os Qing (entre as suas elites?). E a prata vai deixar de afluir grandemente. 
Os britânicos sabiam que o comércio deste produto era moralmente repreensível, mas nem por isso deixaram de o fazer. Os Qing, por seu lado, tentaram proibir este comércio. Em 1838 debateu-se a questão do ópio entre os chineses e a facção moralista venceu. O comissário Lin Zexu (diz-se que terá enviado carta - nunca recebida - à rainha Victoria alertando-a, precisamente, para a moralidade da questão) foi enviado a Cantão e este decidiu apreender todo o produto e destruí-lo. Os britânicos, considerando-se ofendidos e considerando ainda que seus cidadãos haviam sido abusivamente presos, declararam guerra aos chineses, naquela que ficou conhecida como a primeira Guerra do Ópio, com a vitória dos ocidentais. Em 1842 é assinado o Tratado de Nanquim, aquele que é considerado como o primeiro dos tratados desiguais e que serviria de modelo para muitos outros. Com ele ficou fixada a cedência de Hong Kong aos ingleses, o estabelecimento de uma indemnização, a abertura de mais quatro portos e a residência aí de súbditos britânicos, relações de reciprocidade e a chegada ao fim do sistema de Cantão. No ano seguinte, em adenda, estabelece-se ainda a extra territorialidade, segundo a qual os cidadãos britânicos apenas podiam ser julgados no seu país, e o estatuto de nação mais favorecida para os britânicos, o que comprometia grandemente a autonomia diplomática chinesa.
Como se os britânicos não apreciassem, mesmo assim, o andamento do comércio e a proibição de penetração de estrangeiros pelo interior da China, em 1858, após a segunda Guerra do Ópio, é assinado o tratado de Tianjin e depois a Convenção de Pequim. Fica assim consumada a cedência de Kowloon aos britânicos, a abertura de mais onze portos, a liberdade de religião na China e a legalização do comércio do ópio.


Para além da pressão dos ocidentais, a China Qing teve ainda de lidar com diversas rebeliões a nível interno. Os motivos para a emergência destes rebeldes eram a corrupção, a má administração e problemas económicos e monetários. Para a história já havia ficado a rebelião do Lotus Sutra, na passagem para o século XIX, devastadora e da qual se diz que os Qing nunca recuperaram totalmente. Mas os meados do século XIX seriam palco de três grandes rebeliões. Várias muçulmanas, entre 1855 e 1873, como resposta a uma cada vez maior discriminação oficial dos muçulmanos. A repressão a estes movimentos foi tão feroz ao ponto da população muçulmana no Yunnan, um dos palcos, reduziu para menos de metade. Outra rebelião séria foi a rebelião Nian, entre 1851 e 1868, com origem no norte do Anhui e associada à seita do Lotus Branco. Era constituída por diversos grupos rebeldes e liderada por um antigo caudilho traficante de sal. Este movimento não tinha outra ideologia que não a de tirar aos ricos para dar aos pobres, dedicando-se mais às pilhagens. 


Pelo contrário, a rebelião Taiping possuía uma forte carga ideológica e entrou para a história como um dos maiores movimentos revolucionários. Entre 1850 e 1864 a China ver-se-ia dizimada por este movimento liderado por Hong Xiuquan, um hakka que após conhecer um missionário cristão passa a considerar-se como o irmão mais novo de Jesus Cristo. Deflagrada no sul da China, no Guangxi, rapidamente se concentrou em Nanquim. Imbuída num forte sentimento manchu, elabora a sua própria doutrina religiosa, um sincretismo entre cristianismo e aspectos chineses. Consegue reunir à sua volta uma série de descontentes, reúne exércitos de cerca de 700 mil homens, em 1853 entra em Nanquim e no seu apogeu domina mais de 30 milhões de pessoas. Eis algumas das reformas do então criado Reino Celeste da Grande Paz, Taiping Tianguo: instituição de milícias de camponeses, abolição da propriedade privada e nacionalização da terra para posterior distribuição do estado (por isso que os Taiping eram tão do agrado dos marxistas e viriam a ser apropriados como bandeira do partido comunista chinês no século seguinte), declaração de uma sociedade sem classes e com igualdade entre os sexos, interdição do consumo de ópio, álcool e tabaco, jogo e prostituição. 
Os Qing conseguiram, por fim, por termo a esta rebelião, mas, ironicamente, tiveram para tal o apoio dos ocidentais. Apesar de todas estas rebeliões, nenhuma delas consegue acabar com a dinastia Qing, embora tenha contribuído para a sua debilidade. Apesar de ser usual dividir a história Qing em períodos antes e depois da Guerra do Ópio, estas rebeliões foram muito mais gravosas para a população. Algumas regiões foram dizimadas e as populações morreram ou migraram. A reconstrução custou dinheiro considerável e a economia ficou mal e o comércio ao longo do raio Yangtze foi bastante afectado pela guerra.

À entrada da década de 60 do século XIX a dinastia e o império pareciam estar próximo do fim. No entanto, durariam ainda mais meio século. Nessa década surgiria um movimento de reformas que ficou conhecido como "auto fortalecimento", o qual defendia a aprendizagem da tecnologia evoluída do ocidente, enviando para isso estudantes ao ocidente no sentido de adquirirem conhecimento. Aplicariam a tecnologia ocidental, mas mantendo, no entanto, os valores chineses, que consideravam superiores. Esta tecnologia era mais a nível industrial, meios de comunicação como caminhos de ferros, extracção mineira, uma modernização a nível militar e naval. 

Mas este auto fortalecimento não atingiu os objectivos pois em 1895, em decorrência da guerra sino-japonesa, com vitória clara destes últimos, foi assinado o Tratado de Shimonoseki, um marco no imperialismo na Ásia Oriental, momento pelo qual se marca o desmoronar do império chinês (e, em contrapartida, a emergência do império japonês). Com este tratado a Coreia deixa de ser estado tributário dos chineses, para passar a ser um protectorado japonês. E os japoneses obtém ainda Taiwan e a península de Liaodong. Aqui vai estar um problema, pois começa a intervenção tripartida - Rússia, Alemanha e França - reclamando desta concessão do Liaodong. Rússia exige concessões semelhantes, britânicos obtêm os Novos Territórios, Alemanha Qingdao, enfim, várias nações conseguem obter importantes territórios e o império Qing fica fragmentado. Gradualmente, alguns membros das classes mais instruídas foram compreendendo que a força das nações ocidentais não estava apenas na tecnologia militar. Antes, os seus sistemas sociais e governamentais também lhes conferiam vantagens. Em consequência, difundem-se novas ideias políticas e começa a vingar a ideia de que as instituições políticas e a burocracia chinesas estavam obsoletas. Os "cem dias de reforma", em 1898, ficou conhecido como um movimentos em que Kang Youwei e Liang Qichao defenderam reformas radicais no sentido de levar à modernização da China. O paradigma era, de certa forma, a reforma Meiji do Japão. As medidas defendidas eram, entre outras, a inclusão de estudos ocidentais na educação chinesa, o envio de chineses para o estrangeiro, a reforma do sistema de exames, a modernização e ocidentalização do aparelho burocrático imperial, a modernização do exército e o estabelecimento de assembleias locais eleitas. Esta a reposta das elites ao imperialismo. No entanto, os conservadores manchus, entre os quais Cixi, a imperatriz regente, deram golpe de estado e voltam ao poder (haviam fugido).


A resposta nativista ao imperialismo veio pela Revolta dos Boxer, movimento camponês anti-estrangeiro, anti-imperialista e anti-cristão e influenciado pela tradição de sociedades secretas. Não tinham projectos reformistas e, até, guiavam-se pelo lema "apoio aos Qing, destruição dos estrangeiros". Eclodiu na região de Qingdao, onde os alemães estavam, e assistiu-se à destruição de igrejas e ao ataque a missionários. Estendem o seu foco de acção e entram em Pequim. No entanto, as tropas Qing vão ter um comportamento ambíguo e vão antes tolerar os revoltosos e não suprimi-los. Só quando são chamadas tropas estrangeiras para intervir - uma vez que o bairro das legações em Pequim tinha sido atacado - é que Cixi clarifica sua posição e ordena que fossem apoiados os Boxers contra os estrangeiros. Assistiu-se a uma enorme brutalidade, com saques e incêndios em Pequim. Chineses capitulam e - hei-lo - vem mais um tratado desigual a caminho, o Protocolo Boxer de 1901, com mais humilhação e indemnização a pagar pelos chineses. A soberania Qing fica extremamente debilitada e daqui para a frente emergirá um sentimento nacionalista e ideais modernistas que irão levar à queda da dinastia e do império e à instauração da república em 1912. Destaque para o papel de Sun Yat-sen, o emigrado que conseguiu reunir à volta da sua Aliança Revolucionária (mais tarde o Guomindang, o Partido Nacionalista do Povo) muitos partidários.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

A Primeira Metade da China Qing

A dinastia Ming começou a entrar em decadência por vários factores. O imperador Wanli, que reinou durante 48 anos, morreu em 1620 e essa decadência acelerou. Aos imperadores faltava-lhe poder efectivo, havendo um domínio da burocracia e dos eunucos. Existiam ainda problemas económicos e fiscais. E também factores externos contribuíram para o seu fim. Invasões japonesas à Coreia envolveram a China na contenda, com perdas humanas e gastos financeiros significativos. Mas o perigo maior viria dos manchus. Numa aliança de tribos, Nurhaci vai anexando territórios e os seus sucessores chegam cada vez mais perto de Pequim. Sucessores dos Jurchen, os manchus assentavam a sua organização no sistema de estandartes, com funções militares, mas também políticas, sociais e económicas.


Em 1644, numa altura de caos fiscal, revoltas camponesas e surtos de banditismo, Li Zicheng, um caudilho, toma Pequim. Vai, então, proclamar a dinastia Shun, com capital em Xi'an, mas esta durará pouco. Wu Sangui, um oficial Ming que haveria de ficar conhecido como um dos três feudatários, pede ajuda aos manchus para combater Li Zicheng e estes aproveitam a vitória para entrarem eles próprios em Pequim. A pacificação da China e a consolidação da dinastia Qing durará cerca de 40 anos, pois, para além dos ditos três feudatários, os manchus tiveram ainda a oposição dos Ming do Sul e do império marítimo dos Zheng. Estes eram uma família de comerciantes do Fujian que se estabeleceu em Taiwan e aproveitou a falta de concorrência derivada do facto de os Ming restringirem o comércio marítimo e os japoneses terem expulsado os portugueses e reduzido os holandeses à ilha de Deshima. Apenas em 1683 conseguiu o imperador Kangxi ordenar um ataque bem sucedido aos Zheng, eles que eram apoiantes dos Ming do Sul.    

A partir desta data os Qing conseguem então a pacificação e partiram para tempos de prosperidade. Muito também graças a três grandes imperadores que através dos seus longos reinados consolidaram a dinastia: Kangxi (reinou entre 1662 e 1722, o maior reinado), Yongzheng (reinou entre 1723 e 1735) e Qianlong (reinou entre 1735 e 1796, tendo abdicado de forma a não governar nem mais um dia do que o seu avô Kangxi havia reinado).


O império Qing mais do que duplicou o território dos Ming, incluindo no seu império o Tibete, a Ásia Interior e Taiwan. E mais do que triplicou a sua população. E lembrar que os Qing foram contemporâneo de outros grandes impérios como os otomanos, os mogóis e os romanov. E com eles verificaram-se influências mútuas entre oriente e ocidente. Mas já lá vamos. Vejamos agora aspectos na sua administração.
Os Qing mantiveram a maioria das práticas Ming e encorajaram os funcionários chineses a servirem a nova dinastia, apesar de terem obrigado os chineses a usarem a sua característica trança, o que muito os humilhou. Não pode deixar de referir-se que os Qing eram considerados bárbaros estrangeiros, ou seja, não han, e eram claramente uma minoria governante.
No entanto, mantiveram algumas das instituições políticas anteriores, como o Grande Secretariado (o órgão executivo), os seis ministérios e o Censorado, para além de terem restaurado a Academia Hanlin. Mantiveram o sistema de exames como forma de recrutamento de oficiais (sistema de mérito, ao contrário do que acontecia nos estandartes, que era hereditário). Quanto à administração provincial, criaram 18 províncias, encontrando-se abaixo desta unidade territorial prefeituras e distritos. À frente de cada província estava um governador, ou um governador geral à frente das províncias maiores ou de conjuntos de duas províncias. A máquina administrativa dos Qing é dual, encontrando-se aí chineses e manchus. 
Mas os Qing criaram três novas instituições que se moviam fora do esquema, segundo uma rede clientelar e não através de funcionários que passaram nos exames. Aqui o sistema de estandartes vai ser particularmente importante, pois era daqui que seguiam os homens para estes novos órgãos. São eles o Lifan Yuan, ou departamento de assuntos coloniais, criado para administrar áreas fora do território chinês tradicional, ou seja, para lá da muralha. A sua função era desenvolver rituais para integrar as populações coloniais no império Qing, através de caçadas ou de missões tributárias. Outro departamento então criado foi o da Casa Imperial, destinado a tratar do património pessoal do imperador e dos seus serviços pessoais. Este é visto como uma resposta ao crescente poder dos eunucos e estes ficaram somente com os serviços mais íntimos, sendo as outras funções preenchidas por funcionários vindos dos estandartes. Por fim, foi ainda criado o Conselho de Estado, ou Grande Conselho, o qual começou por ser uma comissão informal de aconselhamento do imperador para assuntos militares, mas que depois evoluiu para um órgão que se estendeu a todas as áreas da política imperial. Este órgão acabou por tornar-se o mais alto órgão de decisão política e fez com que o Grande Secretariado fosse perdendo a sua força política e poder de decisão. 

Algumas razões para a prosperidade da China na primeira parte da dinastia. Desde logo, mudanças na agricultura, com a introdução de mais variedades de arroz, ou seja, mais colheitas por ano. Também a introdução de novas culturas, sobretudo vindas do novo mundo, como a batata doce, o amendoim e o milho. Ainda, o aproveitamento de terras que não eram adequadas para o cultivo de outros produtos, ou seja, o aumento da terra cultivada. Verificou-se um acentuado crescimento demográfico, para o qual contribuiu igualmente a existência de uma baixa taxação e a baixa de mortalidade e de infanticídio.

Com o território pacificado, os Qing vão ter menos preocupações com a defesa e o comércio internacional vai assumir um papel de grande relevo. Lembrar que a China pretendia enquadrar todos os estrangeiros no seu sistema tributário de comércio, considerando-os como vassalos. Este modelo implicava uma China isolacionista, xenófoba e incapaz de se adaptar a um esquema de estados nações baseados no respeito mútuo e soberania. Mas este sistema tributário havia já perdido dominância antes da conquista dos Qing, muito também porque os custos para o manter eram bastante avultados, constituindo um fardo para o tesouro do estado. Assim, por exemplo, os Ming haviam autorizado já os portugueses a estabelecerem um centro de comércio privado em Macau e os russos em 1689 comerciavam em plano de igualdade com a China. Em 1699 é autorizado aos britânicos o estabelecimento de uma feitoria em Cantão. Este era o porto mais utilizado pelos europeus, dadas as suas vantagens como boas vias. 


Nos finais do século XVII o chá estava a dar os primeiros passos como produto do agrado dos britânicos. Durante o século XVIII a exportação de chá para a Europa vai duplicar sucessivamente. O comércio marítimo de então dos europeus com os chineses envolvia sobretudo a troca de chá por prata. Havia ainda a exportações de alguma porcelana, seda e papéis de parede com motivos chineses. Mas era a prata que os chineses mais queriam e ela é que financiava todo este comércio e terá sido a necessidade de prata por parte dos chineses que desencadeou este comércio globalizado. 


Entre 1760 e 1834 o comércio com os europeus foi-se institucionalizando no sistema de Cantão, segundo o qual o exclusivo de comércio com os ocidentais estava limitado às cohong, um conjunto limitado de corporações de firmas chinesas oficialmente autorizadas a negociar com os ocidentais e responsáveis por policiar este comércio. As regras do jogo eram claramente ditadas pelos chineses; os ocidentais apenas podiam negociar com as cohong e estavam limitados às 13 feitorias e tinham poucos direitos. 

No final do século XVIII verificava-se um défice comercial claro por parte dos europeus, em especial dos britânicos. Estes começam, então, a fazer pressão para uma maior abertura da China. Em 1792, era Qianlong imperador, dá-se a primeira embaixada britânica à China, tendo sido enviado Lord Macartney. Os britânicos estavam influenciados pelas filosofias do comércio livre de Adam Smith (liberalismo) e por isso queriam obrigar os Qing a abandonar as suas limitações à penetração do comércio ocidental. Existiam diferenças claras entre os chineses e os ocidentais: uma obstinação com o arcaico ritual, por contraponto ao racionalíssimo e pragmatismo ocidental; uma abjecta obediência a uma autoridade despótica, em contraste com as premissas de igualdade, dignidade humana e soberania popular ocidentais.
A embaixada de Macartney, que pretendia redução de taxas, abertura de mais portos ao comércio, suscitar o interesse chinês pelos produtos britânicos, autorização para instalação de um embaixador em Pequim, informação sobre a China, dizia, a embaixada de Macartney falha, não sem que este se tenha recusado a fazer o kowtow diante do imperador, ou seja, o ritual e prostração e bater com a cabeça no chão.



domingo, 9 de fevereiro de 2014

Semelhanças e diferenças entre os Ming e os Qing

Quer a dinastia Ming (1368-1644) quer a dinastia Qing (1644-1912) têm à cabeça um imperador, seja uma figura forte, seja meramente simbólica. Ambas possuem um estado central e burocrático, cujos funcionários são recrutados através do sistema de exames (ideia de mérito). O crescimento populacional foi evidente ao longo dos dois períodos, bem como o crescimento económico, aumento do dinheiro em circulação, aumento do comércio e aumento da quantidade e da variedade de produtos transacionados. 
Como diferenças entre as duas dinastias temos desde logo a mais evidente. Os Ming eram considerados chineses (han) e os Qing estrangeiros (manchus). A dimensão territorial do império chinês é, igualmente, diversa e entre uma dinastia e a outra o território duplicou, passando a abranger a Mongólia, Manchuria, Xingxiang e Taiwan. Outra diferença assenta na questão do prestígio, ou não, dos militares. Durante os Ming estes eram mal vistos, uma vez que as artes da guerra eram também mal vistas. Com os Qing, império expansionista, pelo contrário, eram altamente prestigiados.